Às
vezes fazem como se as pessoas não pudessem se exprimir. Mas, de fato, elas não
páram de se exprimir. Os casais malditos são aqueles em que a mulher não pode
ficar distraída ou cansada sem que o homem diga: “Que que você tem? exprima-se...”,
e o homem sem que a mulher... etc. O rádio, a tv
fizeram com que o casal transbordasse, enxamearam-no por toda parte, e somos
transpassados por falas inúteis, por quantidades dementes de falas e de
imagens. A besteira nunca fica muda nem cega. De modo que o problema já não é
fazer com que as pessoas se exprimam, mas arranjar-lhes vacúolos de solidão e
de silêncio, a partir dos quais elas finalmente teriam algo a dizer. As forças
de opressão não impedem as pessoas de se exprimir; ao contrário, forçam-nas a
se exprimir. Doçura do não ter nada a dizer, direito de não ter nada a dizer,
pois esta é a condição para que algo de raro se forme, de rarefeito, que
mereceria ser dito, mesmo que pouco. Não é de interferências que atualmente
estamos estafados, é de proposições que não têm interesse algum. Ora, o que
chamamos de sentido de uma proposição é o interesse que ela apresenta. Não há
outra definição para o sentido. E isso equivale à novidade de uma proposição.
Podemos ficar ouvindo pessoas durantes horas: interesse nenhum.... Por isso é
tão difícil discutir, é por isso que não cabe discutir, nunca. Não vamos chegar
a alguém dizendo: “O que você diz não tem interesse algum”; podemos dizer a
ele: “Está errado”, mas o que alguém diz nunca está errado, não é que esteja
errado, é que é bobagem ou não tem importância alguma. É que isso já foi dito
mil vezes seguidas. As noções de importância, de necessidade, de interesse são
mil vezes mais determinantes que a noção de verdade. De modo algum porque elas
a substituem, mas porque medem a verdade do que digo.
(Deleuze, Pourparlers, 1990)
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